quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Deja Vu


Ela acordou no meio da noite assustada, suando muito e com o coração batendo muito forte.
Sentou-se na cama, respirou fundo e aos poucos seu corpo parava de tremer.
Ela não lembrava do pesadelo que havia tido. Ainda bem, pois devia ter sido horrível para ter acordado descontrolada daquele jeito.
Foi até a cozinha e tomou um pouco de água com açúcar.
Quando voltou para o quarto, parou na porta.
Olhou para a cama que estava desfeita, o cobertor jogado para o lado e os travesseiros fora do lugar.
Ela ficou parada ali olhando aquela cena, como se já tivesse tido aquela sensação antes: a luz fraca que vinha do abajur, o tic-tac do relógio, a roupa dobrada na cadeira.
Lembrou-se do medo no meio da noite, de suas pernas tremendo ao ir até a cozinha pegar um copo d’água e do alívio ao voltar ao quarto.
Mas havia uma diferença.
Havia alguém deitado na cama dormindo profundamente.
Ela podia lembrar que ele estava deitado de bruços, segurando o travesseiro e que respirava pesadamente.
Era essa a hora da solidão.
Ela não queria lembrar para não sentir saudades.
Mas o pensamento é algo que não se controla e quando deu por si, já estava de volta ao tempo em que ele fazia parte de sua vida.
Ela era mais feliz?
Não sabia.
Mas a felicidade baseada na presença de outra pessoa é algo muito delicado. Pode desaparecer e se transformar.
Pode passar de sonho a pesadelo. De doces lembranças a memórias amargas.
E ela geralmente esquecia os momentos ruins. Só conseguia se lembrar dos bons momentos, o que é uma bênção e uma maldição.
É uma bênção quando se pode esquecer do medo e uma maldição por esquecer o que não deveria ser esquecido nunca.
Esquecer o medo era perigoso em certas situações. O medo sempre a preservou e a fez evitar situações de risco.
Mas ela correria o risco para tê-lo novamente ali consigo mais uma vez.
Assim, no próximo pesadelo, ele a abraçaria novamente e lhe daria esperanças que o próximo sonho poderia ser muito bom.
(Júlia Bellini)

 




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