Eu
corri para não perder o ônibus que vinha vindo no fim da rua.
Quando
consegui embarcar e encontrar um lugar para sentar, estava suada e ofegante.
Fazia um calor terrível.
Eu
ainda estava levando comigo vários livros, minha bolsa e uma mochila nas costas.
Abri
a janela o máximo que consegui, fechei os olhos, dei um suspiro e deixei o
vento despentear meus cabelos.
Quando
eu já conseguia respirar normalmente, me veio um pensamento. Ou foi uma
lembrança? Foi uma lembrança. Uma sensação. Um frio na barriga.
Até
agora não entendi o que disparou aquela sensação.
Talvez
tenha sido um cheiro, uma cor ou quem sabe a paisagem que passava por mim
através da janela do ônibus.
Mas
depois de alguns segundos, percebi que o que eu sentia era saudade.
Era
como se ele estivesse ali.
Fechei
os olhos novamente e voltei no tempo.
Agora
eu podia senti-lo ao meu lado, roçando se braço no meu num carinho cúmplice e
íntimo.
Consegui
sentir seu perfume e uma onda de calor me invadiu.
Sua
perna estava encostada na minha e uma das mãos pousada carinhosa e sensualmente
em meu colo, lembrando-me de todo o prazer que ela podia me proporcionar.
Eu
podia senti-lo olhando para mim, observando cada centímetro do meu rosto como
se quisesse guardar na memória cada detalhe de mim. Como se já soubesse que eu
não estaria com ele por muito tempo. Como se ele adivinhasse que eu o deixaria
por motivos que hoje são totalmente sem importância, irrelevantes.
Com
os olhos fechados eu pude lembrar do turbilhão de desejos que ele me provocava.
Eu
conseguia lembrar de seu andar, de seus gestos e de suas manias.
Lembrei
dos momentos de alegria, do carinho, das brincadeiras, das frases que
completávamos juntos numa conversa casual.
Mas
principalmente, me lembrei de seu olhar: intenso, verdadeiro, direto. Dizendo
com os olhos exatamente como pensava, o que esperava e o que podia dar.
Era
um olhar cheio de vida quando olhava para mim. Parecia que eu o resgatava da
mesmice do dia-a-dia para um abismo de emoções.
Nunca
irei esquecer seu olhar. Foi o que me fascinou desde a primeira vez que o vi e
é o que nunca me fará esquecê-lo.
O
ônibus freou e eu retornei à realidade.
Levantei
equilibrando-me e fui até a porta de saída.
O ônibus parou, eu desci e fiquei parada na calçada com o peso da lembrança.
Num último relance
olhei para as pessoas que estavam dentro do ônibus lotado e pude ver seu rosto com o
mesmo olhar de sempre, mas me perdendo novamente na mesma velocidade em que o
ônibus se movia.(Júlia Bellini)

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