sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Lembrança


Eu corri para não perder o ônibus que vinha vindo no fim da rua.
Quando consegui embarcar e encontrar um lugar para sentar, estava suada e ofegante. Fazia um calor terrível.
Eu ainda estava levando comigo vários livros, minha bolsa e uma mochila nas costas.
Abri a janela o máximo que consegui, fechei os olhos, dei um suspiro e deixei o vento despentear meus cabelos.
Quando eu já conseguia respirar normalmente, me veio um pensamento. Ou foi uma lembrança? Foi uma lembrança. Uma sensação. Um frio na barriga.
Até agora não entendi o que disparou aquela sensação.
Talvez tenha sido um cheiro, uma cor ou quem sabe a paisagem que passava por mim através da janela do ônibus.
Mas depois de alguns segundos, percebi que o que eu sentia era saudade.
Era como se ele estivesse ali.
Fechei os olhos novamente e voltei no tempo.
Agora eu podia senti-lo ao meu lado, roçando se braço no meu num carinho cúmplice e íntimo.
Consegui sentir seu perfume e uma onda de calor me invadiu.
Sua perna estava encostada na minha e uma das mãos pousada carinhosa e sensualmente em meu colo, lembrando-me de todo o prazer que ela podia me proporcionar.
Eu podia senti-lo olhando para mim, observando cada centímetro do meu rosto como se quisesse guardar na memória cada detalhe de mim. Como se já soubesse que eu não estaria com ele por muito tempo. Como se ele adivinhasse que eu o deixaria por motivos que hoje são totalmente sem importância, irrelevantes.
Com os olhos fechados eu pude lembrar do turbilhão de desejos que ele me provocava.
Eu conseguia lembrar de seu andar, de seus gestos e de suas manias.
Lembrei dos momentos de alegria, do carinho, das brincadeiras, das frases que completávamos juntos numa conversa casual.
Mas principalmente, me lembrei de seu olhar: intenso, verdadeiro, direto. Dizendo com os olhos exatamente como pensava, o que esperava e o que podia dar.
Era um olhar cheio de vida quando olhava para mim. Parecia que eu o resgatava da mesmice do dia-a-dia para um abismo de emoções.
Nunca irei esquecer seu olhar. Foi o que me fascinou desde a primeira vez que o vi e é o que nunca me fará esquecê-lo.
O ônibus freou e eu retornei à realidade.
Levantei equilibrando-me e fui até a porta de saída.
O ônibus parou, eu desci e fiquei parada na calçada com o peso da lembrança.
Num último relance olhei para as pessoas que estavam dentro do ônibus lotado e pude ver seu rosto com o mesmo olhar de sempre, mas me perdendo novamente na mesma velocidade em que o ônibus se movia.
(Júlia Bellini) 

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