Ela passava todos os dias naquela ruazinha e mal prestava
atenção às cores a sua volta.
Ela não via o colorido vibrante da casas, o vermelho tinto das trepadeiras nos muros, o amarelo vivo do ipê e a miscelânia de cores de pequenas flores e plantas dos jardins.
Ela andava com a cabeça baixa, olhando para os próprios pés
e pensando.
Pensava nas contas que tinha para pagar, no dia longo que
teria pela frente num trabalho monótono, no calor abafado que fazia.
Sua cabeça latejava, sua boca estava seca e ela sentia-se deprimida e derrotada.
Aquele seria um daqueles dias: pesado, lúgrubre, cinza e
onde nada parecia dar certo.
Seus pés a arrastavam para frente mas sua vontade era de sair
correndo sem rumo e simplesmente fugir de tudo aquilo.
Ela sonhava com outra vida.
Talvez uma vida com mais conquistas e onde pudesse se sentir
mais forte.
Uma vida onde ela não sentisse tanto medo e não se sentisse
tão só.
De repente, ela tropeçou em algo e se estatelou no chão,
batendo com a cabeça na guia da calçada.
Por alguns instantes ela ficou ali, com os olhos fechados
sem saber ao certo o que fazer ou o que havia acontecido.
Uma sensação de alívio invadiu seu corpo e ela se sentiu tão
leve que achou que poderia até flutuar.
Quando abriu os olhos, não conseguiu enxergar bem.
Piscou com força e tentou fixar o olhar em algo, mas só o que ela conseguia ver era a silhueta embaçada de alguém que falava com ela.
Mas ela não ouvia nada.
Um silêncio pairava ali como um alívio.
Quando tentou se levantar sentiu o peso do próprio corpo e
desistiu.
Algo quente escorria de sua cabeça e ela sentiu o gosto de sangue na
boca.
Engraçado não sentir medo. Ela estava calma e relaxada, como
se tivesse certeza que aquilo não era nada, ou que fosse o começo de tudo.
O número de silhuetas ao seu redor aumentou e ela pôde ver umas luzes vermelhas e azuis piscando à sua frente.
No meio de toda aquela gente curiosa que tentava ver o que
acontecia, ela conseguiu notar alguém diferente.
Era a paz refletida no rosto dele, o sorriso apaziguador, o
calor que emanava daquela presença que chamou sua atenção.
Ela tentava se lembrar quem ele era, pois tinha a impressão que o
conhecia, mas após alguns segundos desistiu. Não era importante.
As pessoas se afastavam inconscientemente para dar espaço a
ele.
Quando ele chegou bem próximo dela, simplesmente lhe
estendeu a mão.
Ela se sentia segura e protegida e já estava levando sua mão
em direção a dele, quando se lembrou.
Ela se lembrou da voz de sua filha cantando no chuveiro, do calor do abraço das pessoas que amava, da surpresa do primeiro beijo, do conforto de sua cama numa manhã bem fria, da alegria de seus cães todas as vezes que chegava em casa, do sabor delicioso de um pão quentinho com a manteiga derretendo, da sua música preferida e de
tantas outras coisas que havia esquecido há tempos.
Ela se lembrou das cores da sua vida. Das pequenas coisas que coloriam sua existência e resolveu que não queria mais dias cinzentos e sombrios.
Foi quando ela afastou sua mão da dele e fechou os olhos
novamente.
Mas mesmo com os olhos fechados ela podia vê-lo ali parado a
sua frente sorrindo carinhosamente.
Ele entendia e podia esperar.
Da próxima vez que abriu os olhos ela pôde ver todas as
cores das quais havia se esquecido, num pequeno vaso com tulipas coloridas colocado bem à sua frente.
Mas principalmente, ela pôde ver a cor da vida e prometeu a
si mesma que nunca mais iria se esquecer.
(Júlia Bellini)



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