sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Rei morto, Rei posto


Muammar Gaddafi está morto.
Assassinado pelos rebeldes e pelas forças comandadas pela OTAN, forças estas que até pouco tempo atrás, deitavam e rolavam usufruindo de imensos negócios financeiros com a Líbia.
Agora, rebeldes líbios, Estados Unidos e outros poderosos países europeus caçaram e executaram o ditador, tal qual fizeram com Sadan Hussein, no Iraque.
A questão aqui não é se Gaddafi foi um líder terrível ou não.
Todo mundo sabe que ele governou a Líbia por 42 anos com “punhos de ferro” como disse Barack Obama.
Todos sabem que ele torturou e assassinou milhares de pessoas que eram contra seu governo.
Todos sabem também do enriquecimento ilícito de sua família.
Mas não é esse o ponto.
Executando Gaddafi à sangue frio, não estaremos dando às futuras gerações o exemplo errado?
Gaddafi não deveria ter sido capturado, preso, julgado e condenado?
Agora virou moda as grandes potências assassinarem líderes de outros países?
Concordo com a Presidente Dilma quando ela diz: “Não se pode comemorar a morte de qualquer líder.”
Qualquer país tem o direito de depor seus líderes, afinal isso é democracia: líderes escolhidos pelo povo, através do voto dos cidadãos. E nem sempre o líder é removido do poder sem luta, sem sangue.
Imagino que as vítimas de um ditador sangrento devam desejar que ele sofra muito mais do que elas sofreram, e eu não contesto isso. Perdoar é algo divino, e no meio de tanta miséria, violência e abusos, é praticamente impossível empregar a palavra “perdão.”
Mas a “ajuda humanitária” que é oferecida a países em situação igual a da Líbia, não deveria zelar para que os líderes depostos fossem devidamente encaminhados, vivos, a um tribunal internacional de direitos humanos, onde seriam julgados por crimes de guerra e crimes contra a humanidade?
E a ONU que assiste a tudo isso sem emitir uma palavra?
Então o desejo de alguns países poderosos, suplanta a importância de uma organização criada para tomar decisões sobre o mundo?
Acho que sou ingênua em não conseguir comemorar o assassinato de Gaddafi.
Acho que sou ingênua por querer acreditar que agora que foi dado um fim a sua vida, a Líbia tornar-se-á um país democrático.
Porque quem garante que esse país não irá voltar-se contra àqueles que o ajudaram, e tornar-se um grande inimigo do Ocidente?
Não tem sido sempre assim? No Afeganistão, no Paquistão, no Iraque e em tantos outros lugares do mundo?
Mas levando tudo isso em consideração, eu ainda preferiria que quando meus netos sentassem a minha volta para ouvir histórias sobre o mundo, eu pudesse contar assim:
“Era uma vez um homem que livrou um povo de seu rei tirano.
Ele trouxe riqueza e prosperidade para seu reino, mas com o passar do tempo ele se esqueceu dos valores pelos quais lutou para acabar com a tirania e as desigualdades, e na ânsia por poder, tornou-se muito pior que o rei que governava antes dele.
Depois de muitos anos no poder, ele acumulou riquezas sem fim, mas tornou-se cruel e passou a perseguir e matar todos aqueles que discordavam dele.
O povo ficou muito triste e revoltado e um dia, cansados de tanta malvadeza, resolveram acabar com a tirania daquele rei e lutar por sua liberdade.
Reis de lugares longínquos ajudaram os pobres rebeldes.
Depois de muita luta, os rebeldes conseguiram encontrar o rei.
Muitos dos que sofreram com as barbaridades do rei malvado queriam matá-lo imediatamente, mas os governantes dos outros países conseguiram convencer o povo que matando aquele rei, eles seriam tão malvados quanto ele.
Então, os rebeldes capturaram o rei e o julgaram num outro país onde ele teve a oportunidade de se defender e onde os juízes eram imparciais.
Mesmo assim, o rei malvado foi condenado à prisão perpétua, pois ele tinha que pagar pelos horríveis crimes que havia cometido.
Ele foi colocado em uma cela pequena, onde não podia se comunicar com mais ninguém. Uma vez por dia, alguém vinha buscá-lo para tomar um pouco de sol. Ele não podia receber visitas ou ter notícias do que acontecia no mundo.
Após vários anos, o rei morreu na prisão de causas naturais.
O país que ele governava foi reerguido por líderes que amavam seu povo e tornou-se um país rico, próspero, justo, com gente muito feliz e satisfeita com os governantes que eles mesmos podiam escolher.”
Bonitinho, né!
Sonhar ainda é de graça!
(Júlia Bellini)



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